Biossegurança e a evolução dos EPIs na Odontologia

Biossegurança é o conjunto de ações com objetivo de controlar e prevenir prejuízos à saúde humana, animal e ambiente frente a uma determinada atividade. Dessa forma, a biossegurança é um fator primordial na Odontologia. Ao longo do tempo, ocorreram (e ainda ocorrem) avanços na área em relação aos equipamentos de proteção e segurança.

Tempo de leitura: 12 minutos

A Odontologia existe enquanto ciência aproximadamente desde o Século XIX, quando foi fundada em Nova York a Society of Dental Surgeons dos Estados Unidos, uma das primeiras associações de profissionais da área. De lá para cá, os conhecimentos, descobertas e cuidados com a biossegurança foram evoluindo ao longo do tempo.

Na época em que a Odontologia surgiu, sabia-se muito pouco sobre o mundo microscópico. Foram necessários mais de 100 anos em pesquisas para se compreender melhor como estes microrganismos podem interferir nos trabalhos de um dentista.

Ao longo deste período, pesquisas, novos equipamentos, métodos e soluções tornaram a atividade da Odontologia mais segura, indolor e eficaz. Os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), por exemplo, utilizados tanto por profissionais, como por pacientes, também foram se tornando mais sofisticados, seguros, acessíveis e padronizados.

Por isso, preparemos este conteúdo para melhor informar você, leitor, acerca dos métodos de segurança e proteção odontológicos. Saiba agora mais detalhes sobre a história da biossegurança e seu progresso ao longo do tempo.

A importância da biossegurança

Biossegurança e a Evolução dos EPIs
Ed e Isa estão equipados com os EPIs necessários para um atendimento seguro.

Todo profissional da Odontologia aprendeu sobre a importância dos EPIs durante a graduação. Especialmente após o surto de Aids vivido pelo mundo na década de 1980, tanto a academia como os profissionais se convenceram sobre quão importantes são estes instrumentos para a proteção e a prevenção.

Entretanto, a regulamentação destes EPIs é relativamente recente. Por isso, muitos destes equipamentos tiveram grande evolução de performance nos últimos 20 a 30 anos, desde que o CDC americano fez o manual de recomendações biossanitárias em 1993, seguido pela Anvisa anos depois.

Trajetória cronológica da biossegurança na Odontologia

Medidas de biossegurança na atualidade

Atualmente, as Ciências da Saúde têm produzido grande volume de conhecimento na área da biossegurança. No que diz respeito à Odontologia, sabe-se, por exemplo, que o ar pode ser um vetor para vírus e bactérias responsáveis por causar doenças graves.

Mas nem sempre foi assim: em boa parte da trajetória da Odontologia até hoje, era muito comum que os profissionais atendessem aos pacientes sem qualquer tipo de auxílio de assistentes, e com pouca ou até mesmo nenhuma proteção individual. Na época em que havia pouca informação sobre biossegurança, boa parte dos dentistas atendia aos pacientes com as mãos nuas.

Atendimentos antigamente

É sabido desde os primórdios da Odontologia, através de Pasteur, que muitas doenças poderiam ter origem microbiana. Por isso era necessário controlar o uso e a preparação dos instrumentos odontológicos. Entretanto, foi a descoberta do HIV na década de 1980 que revolucionou as preocupações dos profissionais com a biossegurança, modificando profundamente as práticas de prevenção e acabando com os procedimentos a mãos nuas.

Foi em 1993 que o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – a autoridade máxima de vigilância sanitária dos Estados Unidos – publicou uma primeira edição de um guia de recomendações para a prevenção e o controle de infecções em consultórios odontológicos. O documento foi atualizado em 2003 e em 2016, quando recebeu um checklist de avaliação que os profissionais poderiam seguir por conta própria.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou em 2006 a primeira edição do livro “Serviços Odontológicos: Prevenção e Controle de Riscos”, um manual completo da instituição sobre recomendações que os profissionais devem seguir desde a construção de seus estabelecimentos até o uso de EPIs.

Embora muito tenha sido descoberto, ainda hoje presenciamos casos nos quais dentistas ou membros de sua equipe acabam sendo contaminados pelo contato com aerossóis dos fluidos vindos dos pacientes que atendem. No entanto, isso é mais comum em estabelecimentos com estruturas precárias ou que apresentam uma gestão administrativa insuficiente, que não suporte o controle de materiais.

Biossegurança e a evolução dos Equipamentos de Proteção Individual

Via de regra, todo dentista hoje utiliza, pelo menos, gorro, óculos de proteção, máscara, jaleco, luvas cirúrgicas ou de procedimento, além de calçados adequados. No entanto, alguns procedimentos podem exigir o uso de máscaras tipo N95, além de luvas, protetores auriculares e aventais descartáveis.

O uso de equipamentos de proteção pode ser conveniente também para pacientes que podem utilizar óculos, protetores faciais e aventais.

Todos estes EPIs já estão bastante consolidados na prática e na bibliografia científica da Odontologia. Mas estes artigos são frutos de uma constante evolução do conhecimento e dos procedimentos de biossegurança na Odontologia. Vamos entender um pouco mais sobre cada um destes instrumentos e porque eles são importantes, além de lançar um olhar ao passado.

Gorro

Biossegurança: Gorro

Gorros servem como uma proteção mecânica contra a contaminação por produtos, aerossóis ou secreções. Eles protegem a pele do dentista e evitam que fios de cabelo caiam sobre o paciente ou sobre equipamentos. Recomenda-se o uso de gorro descartável, ou gorro de tecido devidamente higienizado, trocado a cada turno de trabalho e sempre que necessário.

Mas basta uma rápida busca na internet para perceber que o hábito de dentistas em utilizar gorros é algo relativamente recente: até 30 anos atrás, era muito comum ir a consultórios e passar por todos os procedimentos sem que o profissional utilizasse nada cobrindo a cabeça.

Óculos de Proteção e Protetor Facial (Face Mask)

Óculos de proteção e Protetor Facial

Os óculos de proteção precisam ser totalmente transparentes, ter vedação lateral e ser laváveis com água e sabão, desinfetados, secos e embalados. Eles ajudam a proteger os olhos de resíduos químicos, físicos e biológicos, sendo utilizados tanto por profissionais, auxiliares e pacientes.

Tornaram-se mais comuns a partir da década de 1980, com a maior compreensão da ciência sobre o HIV e outras doenças transmissíveis a partir de aerossóis e fluídos. Se preferir, o profissional pode utilizar uma proteção facial (Face Mask) no lugar dos óculos. Este equipamento, entretanto, não substitui a máscara.

Máscaras

Biossegurança: Máscara

Um dos EPIs usado por dentistas há mais tempo é a máscara: elas protegem contra gases contaminantes, partículas voláteis, aerossóis e demais fluidos expelidos durante os procedimentos. Dentistas precisam utilizar máscaras descartáveis de filtro duplo, que devem ser descartadas após cada paciente, ou se ficarem umedecidas durante algum procedimento.

Além disso, toda a equipe de atendimento odontológico é frequentemente exposta a sangue e outros fluídos corporais do paciente. Os aerossóis provenientes destes líquidos, por exemplo, podem ser altamente contaminantes em contato com os olhos, a boca, o nariz ou até mesmo a mucosa da pele dos profissionais, causando o que chamamos de contaminação cruzada. Por isso, o uso das máscaras é essencial.

Em se tratando do uso de máscaras, é válido ressaltar a importância dos profissionais da Odontologia na linha de frente do combate ao coronavírus. Dado o alto risco de contaminação pelo Covid-19, é crescente o número de profissionais e auxiliares que têm trabalhado cotidianamente utilizando máscaras tipo N95, que proporcionam maior proteção e melhor filtragem contra microrganismos.

Jalecos e aventais

Jalecos e Aventais

Jalecos e aventais também fazem parte dos EPIs utilizados pelos profissionais da odontologia. O jaleco precisa ter mangas longas, tecido claro, ser de pano para atendimentos comuns, descartável para cirurgia e procedimentos correlatos, ou impermeável para a desinfecção de equipamentos.

As mangas longas devem permitir a vedação por parte da luva, evitando o contato da pele com aerossóis, resíduos e fluidos do atendimento. Embora, no Brasil, os profissionais já utilizassem manuais de biossegurança antes, o formato das roupas era menos padronizado e, portanto, menos eficiente.

Nos pacientes, aventais descartáveis impedem que resíduos dos atendimentos danifiquem as roupas. Eles protegem também a pele dos pacientes do contato com partículas volantes e outros líquidos provenientes dos procedimentos.

Luvas

Biossegurança: Luvas

Luvas tornaram-se mais eficientes e são utilizadas há décadas por profissionais da odontologia. Sua principal utilidade é evitar o contato das mãos do profissional com saliva contaminada por sangue do paciente, além de prevenir lesões ocupacionais com objetos abrasivos ou cortantes.

A evolução destes equipamentos tem permitido luvas que são, ao mesmo tempo, mais leves e finas, porém, mais elásticas e resistentes. Esse equipamento deve ser utilizado em todos os procedimentos.

Para a limpeza dos ambientes, deve-se usar luvas grossas de borracha. Já as luvas de látex ou de procedimento são utilizadas nos atendimentos em si. Sobre luvas de plástico, estas são úteis quando se manuseia objetos de fora do campo de operação, enquanto luvas de amianto, aramida ou couro são usadas no manuseio de objetos esterilizados.

Sapatos

Sapatos

A Anvisa possui definições bastante amplas para a escolha dos calçados dos profissionais: eles precisam ser fechados, antiderrapantes, proteger de impactos, choques, agentes térmicos e perfurocortantes, umidade e respingos químicos. Por isso, a maioria dos sapatos utilizados pelos profissionais são de borracha, embora ainda se utilize sapatos de couro.

Elementos regidos pelas normas de Biossegurança

Infraestrutura Física

A infraestrutura física do consultório odontológico é de fundamental importância para o controle biossanitário da atividade odontológica. É preciso escolher corretamente: o dimensionamento do espaço, os materiais do acabamento, instalações elétricas e iluminação, além de sistema de refrigeração.

Mais importante ainda são as instalações hidrossanitárias, o pleno abastecimento de água, proteção radiológica adequada, proteção contra eventuais gases medicinais e controle do ar.

Vacinação

É mandatório a todos os profissionais da área da saúde, incluindo os dentistas, estar em dia com a vacinação em relação às principais doenças. Entre as vacinas, destacamos: hepatite B, febre amarela, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), tuberculose, dupla adulto (tétano e difteria), influenza e pneumococos.

Higienização das mãos: garantindo a biossegurança

Aspecto fundamental da atividade Odontológica para a biossegurança é a correta higienização das mãos. Mesmo utilizando luvas cirúrgicas, a não higienização pode levar riscos biológicos aos pacientes.

É necessário um cuidado especial na escolha dos produtos para higienização das mãos, além do uso das técnicas corretas de lavagem ou assepsia sem enxágue.

Limpeza e preparação dos artigos odontológicos

Os instrumentos e equipamentos odontológicos podem passar por processos físicos, químicos e/ou biológicos de higienização, esterilização e preparação para o uso. Assim, há um caminho padronizado para todos estes processos, passando pelo enxágue, inspeção visual, secagem, processamento, desinfecção, empacotamento e armazenagem.

Importantíssimo prestar atenção ao prazo de validade da esterilização, pois ele pode variar de acordo com o método utilizado. Portanto, é necessário realizar o monitoramento físico, químico e biológico dos instrumentos higienizados, além de, principalmente, se atentar às condições de manutenção da autoclave.

Instrumentos, rouparia e superfície de equipamentos que não entram em contato direto com o paciente também precisam de cuidados especiais para a higienização, apesar de não estar sujeitos aos mesmos riscos que os materiais de procedimento.

Gerenciamento de resíduos do consultório odontológico

Dentre os principais tipos de resíduos provenientes da atividade dos dentistas estão: resíduos biológicos, físicos, químicos, perfurocortantes ou escarificantes, além de resíduos comuns, que podem ser descartados sem tratamento.

Os resíduos biológicos devem ser tratados com processos químicos ou de outra natureza para reduzir a carga microbiana. Após o tratamento, dependendo do tipo de resíduo e do material resultante do tratamento, são dispensados em recipientes de diferentes cores e características para a destinação final.

Os resíduos químicos, por sua vez, precisam de tratamento e destinação final de acordo com suas características. Quanto aos resíduos sólidos não tratados, estes devem ser dispostos em aterros específicos. Já os resíduos líquidos devem ser tratados e não podem ir para aterros. Por fim, alguns destes resíduos podem ter como destino final a incineração.

Resíduos perfurocortantes devem ser dispostos em local licenciado para esta finalidade. Além disso, devem ser acondicionados em recipiente rígido, à prova de rupturas. Em alguns casos, os resíduos passam por tratamento químico antes da disposição final.

Para tanto, é fundamental que todo consultório odontológico elabore um plano de gerenciamento de todos os resíduos resultantes de sua atividade, de acordo com a Resolução RDC nº 306 de 7 de dezembro de 2004 da Anvisa.

Proteção radiológica

Todo consultório odontológico que possua equipamento de raio-X precisa se atentar aos cuidados determinados pela Anvisa. Embora equipamentos radiológicos de odontologia possuam uma carga relativamente baixa de radiação, seu manuseio incorreto pode causar incidentes indesejáveis.

O equipamento em si já possui uma vedação radiológica bastante eficiente. Mas é importante que, caso necessário, seu consultório também conte com proteção radiológica em chapas de chumbo ou argamassa baritada.

O uso contínuo dos EPIs de acordo com as recomendações técnicas e legais é essencial para você, seus colaboradores e pacientes. Diante disso, certifique-se de manter todos os equipamentos alinhados e disponíveis para a realização dos atendimentos!

Faça parte da nossa Newsletter e não perca nenhum de nossos conteúdos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *